Caxias do Sul - Os últimos dias em Caxias do Sul foram de pânico e muita tristeza por grande parte dos moradores que viram em pouco mais de 45 minutos, suas casas serem invadidas ou tombadas pelas águas das chuvas que caíram sem dó nem piedade na tarde de terça-feira, 07 de fevereiro de 2012. Essa data com certeza não vai sair das mentes de todos, que de alguma forma, foram envolvidos pelos episódios, seja direta ou indiretamente, caso dos profissionais da imprensa ou voluntários que se solidarizaram com a dor alheia.
Muitos relatos atribuindo a responsabilidade ao poder público pelas perdas materiais sofridas por moradores, principalmente os das áreas mais baixas ou daquelas que fazem divisa ou têm ligações diretas com o Arroio Tega. Mas a prefeitura não tem esse poder todo de mandar chuva, vento e tempestade.
Cabe lembrar que há trinta anos não acontecia tamanha precipitação na região e que por este motivo, não houve a devida prevenção por parte das autoridades e nem tão pouco dos moradores das regiões atingidas no que tange às precauções que devem ser tomadas sempre em cuidados com as casas, pátios, pavilhões, etc..
No caso do Fátima Baixo, que vive constantemente sofrendo com os alagamentos, deve ser feito uma reflexão mais cautelosa, uma vez que muitas casas que ali estão não deveriam ter sido construídas em décadas passadas, pois a área em questão não é própria para moradia, pois representa risco para a comunidade, pelas características do solo, por ser em pé de morro e por que cada vez mais outras moradias foram construídas acima destas, se colocando naturalmente como elementos ameaçadores.
Há de ser ressaltado que as responsabilidades ou culpas devem ser divididas entre moradores e poder público. O primeiro por permitir que fossem construídas as casas, muitas delas em cima de galerias fluviais e o último por se aproveitar das situações de permissividade ou descuido do primeiro, se instalando clandestinamente na maioria dos casos.
Essa questão portanto, não é de 5, 6, 8 anos, teremos que nos remeter aos anos 90 talvez, onde aconteceram milhares de invasões ou concessão de lotes à população que estava em dificuldades para morar.
Sempre cabe um estudo profundo de todas as questões envolvendo construções de casas, pavilhões ou edifícios, sobre o local que vai se construir, talvez diminuir o afã de ganhar dinheiro não permite que os empresários não pensem nos danos e os riscos que podem causar á natureza e vice-versa. Não calculam o que a força da água ou do fogo pode causar.
Pena que alguns proprietários não tenham muitas vezes a sensibilidade na hora de cobrar valores de mercado ou tabelar com justiça o valor dos seus imóveis, preferindo aplicar 6, 7 vezes a mais do que realmente valem. Em muitos casos, preferem perder dinheiro e deixar os mesmos fechados ou deteriorando, mas não diminuem o valor.
Isso tem acontecido bastante, mesmo depois dos planos habitacionais ofertados pelo governo. Agora, o chamado ‘Minha Casa, Minha Vida’ ficou inflacionado. O governo não tendo terreno para construir, pagou fortunas por muitos destes que antes valiam ‘merreca’. Alguns espertalhões desapropriaram inquilinos, venderam seus imóveis acima do que realmente valiam. As construtoras não têm interesse em pegar a obra por entenderem que não vale a pena, pois segundo eles, o valor pago é baixo. Sobra para os pequenos empreiteiros, que assim, sem as ferramentas e profissionais adequados e sem o mínimo cuidado na qualidade e na segurança das pessoas, ergue a toque de caixa o imóvel, dando uma boa demão de tinta, ‘uma guaribada’, como se diz na gíria. Vem o interessado, o desesperado sonhador e pimba, fecha negócio e pronto. Enfim, alcançado o sonho da casa própria, nem sabe ele que esse sonho se transformará em pesadelo em algum tempo.
De volta à cena comum, nós da imprensa temos que ter a nossa parcela de responsabilidade também, devemos chamar à discussão todas essas questões e não esperar que o mal aconteça para ganhar nas pesquisas de ibope ou vender jornal. Antes de faturar dinheiro e ‘ganhar’ o leitor com a desgraça alheia, é preciso apontar as causas e dar sugestões no sentido de fazer parte da solução, para se possível, noticiar os verdadeiros culpados. É muito fácil estampar na capa ou internamente nos noticiosos, pessoas chorando, móveis, utensílios domésticos e automóveis boiando no Tega, dando a entender que fizemos a nossa parte. Por outro lado, não temos o direito de incitar a população contra o poder público atribuindo ou deixando no ar suspeitas de que tudo está errado.
Irresponsabilidade sim é entender ou iludir mentes afetadas com todo o sofrimento, de que Deus tem cores partidárias e que isso vem em desacordo ou paralelamente com o habitual. Há de ser levada em conta sim a responsabilidade de todos nessa questão sempre. Então como não atribuir grande parte dessa responsabilidade àqueles que entopem boca de lobo, que jogam lixo nos terrenos baldios, que ‘desovam’ seus móveis e utensílios que não servem mais nas encostas ou até mesmo na rua.
Todos sabemos o quão é difícil não ter uma moradia decente para morar, uma área de lazer para as crianças, uma escola perto das nossas casas, para nossos filhos e netos estudarem com segurança, sem muitas vezes terem que se deslocar de ônibus para longe porque não havia vaga perto de sua casa, representando mais um gasto que poderia ter sido evitado.
A culpa das autoridades existe sim, em muitos casos, não especificamente nesse em que a chuva destruiu muitos sonhos. Não no todo também, em boa parte, a outra parte restante deve ser atribuído com certeza aos moradores que não tiveram o cuidado suficiente com a sua própria vida.
Hipócritas seríamos todos, que num transloucado momento de oportunismo, tentássemos tirar proveito político de uma situação que requer nesse momento, uma grande reflexão, pensar realmente Caxias para daqui a trinta, quarenta, cinqüenta anos, como foi feito com o Marrecas por exemplo, que vai dar água para no mínimo 20 anos.
Infelizes seriam os moradores que não tentassem tirar proveito da situação mudando seus hábitos, cuidando dos terrenos baldios, preservando as áreas verdes para construir praças e parques para seus filhos que viriam depois. Inoportuno seria não reivindicar com sabedoria, ética e educação, tudo aquilo que lhes é de direito. Que sejam justos, principalmente os mais antigos e atribuam responsabilidades àqueles que passaram pelo poder público há pelo menos quatro décadas e que começaram toda a desordem que hoje aí está. A comunidade sabe que esses mandatários talvez estivessem com a maior das boas intenções, mas ao abrirem as torneiras da concessão, não deixaram espaços para os que viriam depois, planejar a cidade como ela realmente deveria ser.
A bem da verdade, algumas desgraças servem como um alerta para que os governantes e as pessoas fiquem atentos à qualidade das casas e serviços que são realizados nas cidades, não só em Caxias. Quando a força das águas levam embora mantas de asfalto das ruas como se fossem papel e deixam a descoberto imensos buracos, não tem outro jeito senão o de questionar que foi mal feito ou no mínimo tenha faltado planejamento na estrutura física do solo. Isso aconteceu no final da Avenida Santa Fé no bairro de mesmo nome, na Mário Lopes, Fátima Baixo, e nas margens da Rota do Sol, no bairro Centenário, como exemplos, onde os paralelepípedos se soltaram como se estivessem encostados um no outro.
No bairro São José, a água fazia ondas em todas as ruas que terminavam na Perimetral Norte no sentido bairro centro, não dando chance a nenhum tipo de transporte trafegar. Moradores desses locais tiverem grandes perdas por se tratar de casas construídas praticamente no mesmo nível da via. Não é preciso ser engenheiro para saber disso, bastava ter presenciado todo o sufoco e o desespero das pessoas. Alguns perderam praticamente tudo, há de se lamentar, mas também estudar, como em alguns locais a água do Tega flui bem e em outras, sofre uma grande interrupção. Tem algo grave acontecendo e precisa ser investigado urgentemente, pois a cada chuva mais intensa, os rumores reaparecerão e levarão o pânico a todos, sem distinção, pobres, médios e ricos. Notícias dão conta de que grandes empresas tiveram prejuízos incalculáveis e levarão algum tempo para recuperar tudo ou boa parte.
Por fim, todos lamentam que isso tenha ocorrido aqui na serra, o alerta que fica é de que nem só em cidades que são cortadas por grandes rios acontecem casos dessa natureza, até um pequeno riacho pode significar uma ameaça para a população, desde que é claro, não seja dado o devido respeito e o cuidado que ele merece, enquanto parte integrante da natureza que todos nós habitamos e em muitas vezes, como um aliado importante para suprir as necessidades do nosso dia a dia.
Às autoridades atuais fica um aviso de que outras catástrofes podem ocorrer. Que tenham as respostas para a população na hora adequada e no momento oportuno. Que sejam mantidas permanentemente equipes de trabalho monitorando os pontos de maior fragilidade e que essas não atuem apenas depois que o fato já tenha ocorrido. Ouvir a população e sair a campo sempre será uma medida eficaz, mesmo que muitas vezes, alguns extrapolem no seu direito de protestar, agredindo com palavras e atitudes, como fizeram os moradores da Mário Lopes e arredores, trancando a rua, impedindo o trânsito de veículos que obrigatoriamente precisavam utilizar aquele trajeto.
Mesmo caso dos moradores da Fortunato Mosele, Vital Brasil, Pio XII e adjacências, que indignados com a situação, ofendiam e ameaçavam os motoristas que tentavam cruzar, ou para os bairros ou para o centro, alegando que as ondas que se formavam contribuíam ainda mais para que as águas entrassem dentro das casas.
Essas são atitudes lamentáveis, pois provavelmente todos estavam querendo ir rápido para suas casas e ver o que estava ocorrendo, pois noventa por cento da cidade sofreu com o episódio.
Aos políticos oportunistas, saibam que o senhor lá de cima não dorme e que ele certamente está fiscalizando todas as ações na nossa vida terrena. Tenham a cabeça e a consciência voltadas apenas para acalmar os ânimos e não para atear gasolina num fogo que já está incontrolável.
Lembrem-se de reservar um tempinho para explicar às pessoas que não se pode jogar lixo nos valões, que áreas verdes servem para construir campos de futebol, creches e praças para as futuras gerações e que elas devem cobrar isso dos seus governantes, antes é claro de fazer as suas casas em cima. Digam também que em todo empreendimento construído, isso deve estar explicito a todos que adquirirem suas casas.
Outra coisa, que as casas que foram danificadas ou que devem ser destruídas por apresentarem risco aos moradores, já têm pelo menos 20, 30 anos e até as que foram invadidas pelas águas já possuem essa idade e que a responsabilidade da administração Sartori e até a de Pepe Vargas são mínimas se todos tiverem a coragem de fazer um mea culpa de tudo o que aconteceu. Que as galerias devem ser cuidadas, que não se pode jogar lixo na sua vazão, nem tão pouco construir moradias em cima do seu leito.
Façam lembrar que a coleta de lixo tem dia específico e que a empresa responsável pelos serviços deve ficar atenta a isso. Se ela não realiza a contento, principalmente nos bairros mais pobres o recolhimento, não é problema do morador, nem por isso os terrenos baldios devam ser punidos, recebendo de forma indiscriminada todo tipo de dejeto.
Às pessoas que tiveram muitos prejuízos, graças a Deus não se perdeu vidas e que isso deve ser comemorado. Todos precisam rever seus conceitos e cobrar seus direitos, mas igualmente, devem colocar na mesma balança os seus deveres enquanto cidadãos e suas responsabilidades com relação aos seus filhos e à sociedade em que vivem.
Aos meios de comunicação cabe abordar todos os aspectos, divulgar é claro o que está acontecendo, mas não como uma comemoração à notícia ruim que sempre desperta maior interesse no leitor ou telespectador.
Todos gostariam de ver os mesmos espaços concedidos na busca pela solução dos problemas, que as tragédias e o choro das pessoas, afinal de contas, que mundo é esse? Evidentemente que não estamos de plantão para qualquer momento sairmos a campo, com os sapatos embarrados e calças molhadas até a cintura em busca de uma imagem chocante de carros submersos e casas inundadas, por que o que virou banal nos dias de hoje, pode ser a nossa desgraça pessoal amanhã.
Existe um ditado que diz que todos querem preservar a onça pintada, mas ninguém quer ter uma em casa. Pode ser aplicado aqui utilizando outros personagens. “TODOS QUEREM AJEITAR A SUA CASA, MAS O VIZINHO QUE SE DANE COM O BARULHO DAS BATIDAS DO MARTELO E DO CHEIRO DA TINTA; PLANTAR FLORES, REGAR DEMORADAMENTE, LAVAR A CALÇADA, MAS NA HORA QUE NÃO TEM ÁGUA E SE FALA EM RACIONAR, O PRIMEIRO QUE RECEBE CRÍTICAS É O GOVERNANTE, QUE NÃO PLANEJOU AQUILO QUE SÓ DEUS NA SUA INFINITA SABEDORIA, SABIA QUE IRIA ACONTECER”
Para o morador é mais fácil culpar alguém do que compartilhar responsabilidades. Assim caminha a humanidade, vamos aprendendo e fazendo o nosso dever de casa todos os dias. (Fotos Ponto Inicial/Texto Laudir J. Dutra)
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