Estreia nacional do espetáculo de Teatro Tango, no Ordovás


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CAXIAS DO SUL - Os atores caxienses Roberto Ribeiro e Tina Andrighetti levam à cena Tango, texto da dramaturga argentina Patricia Zangaro, ainda inédito no Brasil.
Projeto contemplado com o Prêmio Anual de Incentivo à Montagem Teatral da Secretaria Municipal da Cultura de Caxias do Sul, Tango é uma espécie de ponte artística entre o Brasil e a Argentina. Assim como a dramaturga, quem assina a direção é a argentina Ana Woolf. Os ensaios foram realizados tanto em Caxias do Sul quanto em Buenos Aires. Os períodos de estadia na capital da Argentina serviram para o aprendizado da técnica e contato com a cultura do tango. Visitas a tanguerias (milongas) foram inspiradoras para a composição das personagens, cenário e figurinos.
Somos o que dançamos e somos também o detrás do que dançamos, muito além da pista de dança. O tango é o atrativo inicial que acerca as personagens Elsita e Ricardo. Logo no início da peça a regra do jogo está clara: ELE, marcando o compasso, ditando as normas, ELA, aceitando a marcação. Tudo aparentemente dentro da normalidade, já que no tango, com toda a sua tradição codificada, o papel do homem e o papel da mulher estão previamente definidos. Porém, na peça, o tango enquanto dança serve de espelho para revelar, sem rodeios, impulsos e mecanismos das relações entre os gêneros. (Por que ela decide ficar?)
“Amagues, oito pela frente, oito por trás, saída americana, sentadita”, e tantos outros elementos do vocabulário do tango estão presentes no espetáculo que dura aproximadamente uma hora. A trilha sonora é inspirada na programação que ainda hoje toca nas tanguerias tradicionais de Buenos Aires, lotadas de exímios e tradicionais bailarinos, pessoas que mantém vivo o tango, patrimônio cultural da humanidade. Tangos e impulsos sonoros foram criados especialmente para a peça por Gutto Basso.
Tango é uma realização do Teatro do Encontro e do Grupo Teatro Mecânico,  coordenados respectivamente pelos atores Roberto Ribeiro e Tina Andrighetti.
 A autora do texto, Patricia Zangaro, é da nova geração de dramaturgos. Muito ativa politicamente, deu início ao Teatro pela Identidade, dedicado à difusão da causa das Avós da Praça de Mayo. Sua poética é caracterizada pela vontade de emergir aquelas realidades que o discurso dominante torna invisíveis. Com Tango, Patricia venceu a IV edição do Concorso Internazionale di Drammaturgia Delle Donne la Scrittura della Differenza (Itália). A versão do texto para o português foi realizada por Rogério Viana.
Ana Woolf é pedagoga de teatro, atriz e diretora. É co-fundadora e diretora artística do Madalena Segunda Geração (Rede Latino-americana de Mulheres na Arte Contemporânea). Tem forte atuação artística em países como Dinamarca, França, Itália e Brasil. Discípula de Julia Varley, Ana é colaboradora do Odin Teatret, atuando assistente de direção de Eugênio Barba. Como pedagoga de teatro, sua pesquisa, que reúne técnicas ocidentais e orientais, está focada nos princípios que regem a presença cênica do ator, muito influenciada pela Antropologia Teatral. Logo após a estreia de Tango Ana Woolf ministra um workshop de teatro em Caxias do Sul, que inclui os princípios do tango aplicado ao treinamento para atores.
Integram ainda a equipe Jessé Oliveira, na assessoria para o desenho de luz. Marcelo Casagrande que opera a luz. André de Oliveira é o responsável pela logística e comunicação. Mauricio Giubel é o professor caxiense que ensina tango aos atores e presta assessoria coreográfica. O desenho do cartaz foi criação de Douglas Trancoso e Giovana Mazzocchi.
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SERVIÇO
As apresentações do Tango acontecem nos dias   20 e 21 de abril às 20h,    26 de abril às 18 e 20:30h e 27  de abril às 20h, na Sala de Teatro Professor Valentim Lazzarotto do Centro Municipal de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, em Caxias do Sul.
A idade indicativa é 16 anos.
Os ingressos já estão à venda na Óptica Martinato,  à  Av. Julio de Castilhos,  1867 , Centro, Caxias do Sul. Fone 54-3221-2390. Inteiro R$20,00, meia entrada R$10,00. 
Contato (54) 9995-2197 e 8402-2435 – teatrodoencontro@gmail.com
Outras informações no blog www.tangoteatro.blogspot.com

FICHA TÉCNICA
Elenco:
Roberto Ribeiro – Ricardo
Tina Andrighetti – Elsita
direção, cenário, figurinos e conceito de luz  Ana Woolf
música e operação de som Gutto Basso
texto   Patricia Zangaro
tradução  Rogério Viana
assessoria para o desenho de luz  Jessé Oliveira
assessoria para a técnica do tango Maurício Giubel
operador de luz Marcelo Casagrande
logística e comunicação André de Oliveira
desenho gráfico e fotografia Douglas Trancoso Giovana Mazzochi      
produção Teatro do Encontro
realização Grupo Teatro Mecânico e Teatro do Encontro

Tango, o que está atrás ou
Diga-me o que danças e eu te direi quem és. (por Ana Woolf, diretora)
Personagens: ELE – ELA
Didascalia: Um homem e uma mulher sentados de frente para o público. Permanecem imóveis.
Estas são as únicas rubricas da autora em todo o texto. O resto está no silêncio do não dito no curso da dança de palavras. Escutem as primeiras frases e verão que ali já se define tudo, as cartas estão sobre a mesa e os jogadores, ELE e ELA, já estão jogando. ELE, marcando o compasso, ditando as normas, ELA, aceitando a marcação – a mão.
Eu danço tango. Corpo a corpo, regra a regra e com uma voz que diz: “Segue a marcação, nena.” Cada vez que entro no salão eu deixo a cabeça lá fora. E decido dançar. Jogar o jogo embaralhado por ELE. Sei que uma vez ali, no abraço, o jogo não pode ser interrompido. Uma vez começada a dança, ou o duelo “sexual” como escreveu Zangaro, tem que continuar até ELE acabar, o tango, até o “mata-me” e “morro”, até a união de paixão e morte, até o encontro trágico num delírio de êxtase da dança que se torna bacanal.
Propondo perguntas
Por que fico? Por que ELA fica? Por que ficamos? Quais são as estratégias de “engate” que nos fazem saber que ali está a porta e não podemos sair?
O chamado sexo
O categorizado gênero
O recebido
O consumido
O não pensado
O aceito
O que concebemos como “natural” tem sua origem. Sua genealogia. Seu momento de construção.
Quem construiu as regras do tango em sua passagem de dança de homem com homem a dança de mulher com homem?
Os papéis de gênero são armadilhas que nos agarram à força.
Somos o que dançamos
Quando nascemos, ou diante da primeira imagem de ultrasson, passamos da categoria “neném” a “é uma menina”, “é um menino”. A denominação é um modo de fixar uma fronteira e também de inculcar repetidamente uma norma –escreveu Judith Butler.
Na dança do TANGO a tradição deve ser mantida. O sexo (que já traz consigo a identidade de gênero) determina o papel que se vai representar e como, no tango e além do tango. O masculino e o feminino estão construídos como categorias com funções estabelecidas, qualquer desobediência gera punição. Codificação de gestos e ações. Codificação de modos de vincular-se e de formas de estabelecer relações. Desde o pequeno, desde o micro, “a dança de dois”, até o macro.
Dançar o TANGO é também uma forma de ser latinoamericana. Uma maneira de estabelecer relações entre homens e mulheres não só durante os instantes da dança, mas  além da pista de baile.
Somos o que dançamos sim, mas sobretudo somos o que está além do que decidimos dançar. Somos o que está no espaço do abraço entre ELE e ELA, na ressonância que permanece em nós na forma de sentimento/pensamento que nos predispõe à escuta de: “deixe- se levar como um trapinho”. Somos o que fica dessa ressonância e habita a zona de nossas tantas coisas não ditas. Assim é para ELE como para ELA, estamos todas e todos na rede da aranha social.
As regras são históricas mas não história desde sempre, não se incluem na categoria “natureza”. ¿Será que compreendendo/vendo/ mostrando o que está no silencio da dança, entre um “enganche”, um “amague”, entre um “ocho y ocho”, entre um “gancho” e um “boleo”, podemos continuar dançando sabendo o que dançamos quando dançamos, com a consciência de que somos  transmutáveis, transformáveis, construções efêmeras que passam por um salão de dança chamado “vida” só durante o instante que dura o tango – a marcação – que escolhemos seguir?
Gostaria que TANGO de Patricia Zangaro, aqui dançado por Tina, Roberto, Gutto e por mim, possa lhes dizer enquanto dançamos, nós e vocês: Tem um campo do discurso e do poder que orquestra, delimita e sustenta aquilo que se qualifica como “o humano.” (Judith Butler)
Questionemos então a própria “humanidade”.  (Foto Douglas Trancoso)

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